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The Limping Mackerel

The Limping Mackerel

23
Nov21

Pronomes

Quando a moda dos pins (crachás?) com pronomes preferidos se normalizar em Portugal vou a correr comprar um com os que prefiro: tu, te, ti e contigo. 

Sei que as pessoas estão só a ser educadas com alguém que não conhecem e com quem não têm confiança, mas isto de me tratarem por você ou por título académico (que nem sequer tenho!) está-me a baralhar o juízo. Já aconteceu ignorar pessoas que estavam a falar comigo porque filtro automaticamente. Não estava desatento, apenas não reconheço esse trato. E honestamente arrepia-me, não me serve, incomoda, como uma daquelas blusas de lã que podem ser quentes, mas que dão comichão pior que urticária.

E sendo muito honesto, o que se passa com as pessoas à minha volta. Olhem bem para mim. Eu não sou pessoa de você. Falta-me dignidade, respeito, experiência, e principalmente idade, para merecer esse trato. 

21
Out21

Burocracias, prazos e fé nos outros

Uma das muitas coisas que me reduz a ansiedade inútil é a linguagem usada em despachos, normas e regulamentos. É sempre francamente ameaçadora. Preciso que entregar tal e coiso num curto espaço de tempo, de certa e determinada maneira, e tudo neste processo depende de terceiros, desde obter o coiso até o entregar. E se falhar, quem chumba sou eu. Esta burocracia é particularmente frustrante quando é feita através de plataformas electrónicas que não são usadas plenamente. O processo começa e acaba na plataforma, mas ainda há impressos, cartas e papéis intermediários, apesar de nenhum desses intermediários ser essencial ao resultado final. É frustrante (e tipicamente português).

Sei, por experiência própria, que a importância das datas e dos papéis e das assinaturas é exacerbada a pensar nos distraídos que não ligam nada a estas ninharias (abençoados). Sei, por experiência própria, que os serviços académicos na minha faculdade são demorados mas prestáveis, com profissionais sensíveis e práticos. Sei que não há motivos para me preocupar. Sei que tenho de ter confiança nas pessoas com quem lido, que são profissionais competentes. 

Mas é difícil. Tenho o hábito de dramatizar e complicar, o que me leva a gastar imensa energia a perseguir burocracias. Percebo porque é que tenho esse hábito, especialmente em Portugal, com tanta burocracia, incompetência e corrupção. Mas não posso preocupar-me tanto com coisas que estão fora do meu controlo. Eu tenho o meu trabalho e as minhas responsabilidades, não posso ou devo gastar tempo e energia a pensar no trabalho e nas responsabilidades dos outros. Especialmente quando sei que posso confiar nos outros.

Tudo vai ficar bem.

02
Out21

Sem nexo

Há muitos anos que existem pela Europa fora máquinas para recolha de garrafas nos supermercados. Lembro-me de colegas que coleccionavam as garrafas de água dos caixotes dos lixos para ganharem uns trocos. Não era uma fortuna, mas para quem todos os cêntimos contam valia a pena.

Fiquei feliz quando estas máquinas chegaram a Portugal. A minha mãe tem o hábito de guardar tudo o que é útil, eu também, e entre nós tínhamos muitas garrafas de água. O suficiente para pão e alguns legumes. Valia a pena.

Passaram meses, e quando voltei a dar-lhe garrafas ela diz-me que já não recebe nada por elas. Ia lá, descartava as garrafas, e nada. Nenhum talão. E as máquinas, que tinham filas e sacos enormes, estavam abandonadas. Fui investigar e parece que o dinheiro agora vai para instituições de solidariedade. Algumas perguntam ao dador se tem preferência, outras não. E isto é estúpido.

Em países mais ricos e civilizados que Portugal incentivam as pessoas a reciclar. Aqui, onde o povo é pobre e a reciclagem é ignorada retiraram o único incentivo que as pessoas tinham. É uma decisão desligada da realidade. Para mim não faz diferença, mas para quem se dava ao trabalho de ir aos caixotes dos lixos e apanhar sacos e sacos de garrafas fazia diferença. E para o ambiente também faz diferença, porque são garrafas que não vão ser recuperadas do lixo comum e não serão recicladas.

 

Ah, que país desgovernado.

27
Set21

Ansiedade em tempos amenos

Porque é que estou tão ansioso?


  • Estou a ser confrontado com a minha incompetência e ignorância;

  • e tenho medo de perder mais um ano da minha educação/carreira.


O que posso fazer para lidar com esta ansiedade eficaz?


  • Estudar o que tenho de saber e esclarecer as minhas dúvidas;

  • desabafar, ajudar ou pedir ajuda a alguém;

  • fazer exercícios ligeiros;

  • ler, reler e anotar os passos burocráticos que tenho de dar.


Que acções são ineficazes no controlo de ansiedade?


  • Comer hidratos de carbono em excesso;

  • beber álcool sozinho;

  • procrastinar consumindo entretenimento; 

  • pensar no mega-tsunami que pode ser gerado pelo colapso de La Palma, com ondas até 60 m que podem entrar cerca de 16 km no interior.

28
Jul21

Cruz

Já não me lembro onde li ou ouvi isto, ou se é uma crença católica comum, mas cada pessoa tem a sua cruz, um desafio único, algo na vida que têm de superar ou suportar, do qual não podem escapar. Acho que sei qual é a minha cruz. Oh pá, sei que não é má nem grave, sei que é uma cruz que só alguém privilegiado pode considerar um problema. É tão sinónima de privilégio e vida fácil que ninguém a leva a sério (é uma anedota na verdade), e só depois de anos a reprovar na faculdade é que a minha família aceitou que talvez não seja preguiça e má-vida o meu problema (é tão estranho quanto os meus pais me apoiam agora; não consigo acreditar que isto vá continuar; conheço pessoas que foram expulsas de casa por muito menos).

Mas além de sofrimento subjectivo já perdi tantos anos da minha vida com este problema. Estou tão atrás das pessoas da minha idade, com quem fui à escola, com quem entrei na faculdade, com quem me devia identificar, que acredito que este problema é o meu karma, o meu fardo nesta vida. 

Há umas semanas reparei que posso ter este fardo aliviado em breve, e que apesar de continuar a existir, deixará de ser um limite à minha educação/carreira. Se conseguir, em breve a minha vida poderá continuar a um ritmo normal. 

Por um lado, não acredito que o consiga ultrapassar, e prevejo mais um ano trancado em casa (sou de tal maneira avançado que fiquei meses em isolamento antes da pandemia começar, sou campeão nisto). Não acredito que passarei este exame sem pagar mais 1 ano da minha vida. E estou francamente cansado.

Mas por outro lado, ah, quase que consigo sentir a liberdade! Poder passear num jardim sem culpa! Adoptar um gato! Fazer jardinagem! Visitar família! Ir ao dentista! Estudar com gosto, curiosidade e liberdade, e não com este peso nos ombros! Pensar no futuro em datas concretas, e não em anos incertos! Sentir-me como uma pessoa útil e adequada para viver em sociedade! Ter colegas com os mesmos problemas e desafios que eu! Andar com a minha vida para a frente e deixar de ser um parasita e vergonha para a minha família! Voltar a escrever! Cozinhar e limpar por necessidade e não porque são os únicos métodos de coping a que me permito! 

Não sou ambicioso, não vou atrás de distinções ou prémios, e não me preocupo com bens materiais para além de utilidade e conforto. Mas quero andar para frente. Quero ser diferente de quem era no ano passado, de maneira concreta e material. Quero trabalhar na área para que estudo. Estou tão farto de perder "os melhores anos da minha vida" para este estúpido defeito.

01
Jul21

...

Oh pá, outro dia aconteceu uma coisa muito estúpida.

Pediram-me para fazer algo facílimo, mas muito chato e que detesto absolutamente. Não era algo materialmente importante ou sério, mas era importante para quem pediu. E eu disse que não. Como uma criança pequena pedir para ir à feira, e negar isso porque queremos ficar em casa a ver televisão.

Ficou tudo bem, porque rapidamente caí em mim e disse que sim, claro, vou só trocar de roupa. Mas ainda estou chocado que a minha primeira reacção foi dizer que não, metendo o meu conforto imediato acima das necessidades de outra pessoa. Não sei o que me passou pela cabeça, mas o que não passou foi definitivamente a minha decência.

16
Mar21

Regressão

Ah, este novo confinamento e falta de aulas presenciais está a dar cabo de mim. Estou a esquecer-me de como se age em público e como se fala com pessoas. 

Por um lado, é confortável viver como o ermita que sou e ter esse modo de vida justificado e aceite pela sociedade. Por outro lado, tenho que me esforçar activamente para não ser bicho do mato, e preciso de reforço constante para tal. Nas últimas semanas regressei a hábitos que já não tinha há meses ou anos. É mais fácil reconhecer e corrigir maus hábitos, mas quando se tem uma rotina social esses hábitos nem sequer emergem. 

Em termos de stress e energia é ela por ela: corrigir hábitos profundamente enraizados é tão cansativo como socializar. Mas pelo menos quando estou com outras pessoas ficou satisfeito por estar a crescer e a fazer algo que me desconforta. É aquela doce dor de crescimento.

21
Jan21

Bloquear e ignorar

Tenho que me desligar do mundo lá fora.

Tenho de ignorar a pandemia, os mortos, os exaustos e os que estão em risco de ir para a UCI.

Tenho de ignorar as decisões completamente absurdas dos nossos governantes.

Tenho de ignorar as decisões incoerentes de reitores, diretores e professores. 

Não são coisas que possa mudar. Não tenho voz, não faço parte de nenhum partido ou associação estudantil. Não posso ficar frustrado ou revoltado contra a realidade. 

Tenho de aceitar e focar-me apenas em mim, porque eu sou o único fator que posso controlar.

 

Credo, esta pandemia e o circo em volta dela não é um filme de terror, é uma comédia reles sobre a estupidez e incompetência humana. 

10
Jan21

Mais um dia, mais revolta

Detesto pessoas ricas. Detesto a falta de noção com que falam da situação de Portugal. "Querem dinheiro? Emigrem." Pois, receber salário justo e fazer vida no nosso país é pedir demais.

Não minto quando digo isto: a servir cafés e limpar sanitas na Irlanda ganhei mais por mês do que um médico em início de carreira em Portugal (a trabalhar só para o SNS é claro). Mas Luca, a vida na Irlanda é mais cara que em Portugal. Está certo, mas a diferença salarial é muito maior que a diferença entre custo de vida (na minha experiência). Não são países assim tão diferentes; esta é uma diferença que acharia aceitável entre um país africano e um país europeu, não entre duas nações da UE. Revolta-me alguém sem qualquer tipo de formação e com um trabalho pouco importante à sociedade ser mais bem compensado que alguém que trabalhou e sacrificou durante décadas para ter nas mãos a saúde (e vida) de outras pessoas, e cujo o único defeito foi querer ficar no país onde nasceu, com a família e amigos que ama. Ela não se revolta, mas revolto-me eu por ela!

Como é que não posso ficar zangado? Como é que posso conter esta revolta? Como é que posso ficar calado quando alguém nascido em berço de ouro diz que o trabalho deve ser feito por gosto, e que a renumeração é um bónus? Como é que alguém pode dizer isso em plena situação de pandemia, em que os profissionais de saúde se sacrificam por palmas? Profissionais de saúde não são heróis, não são santos que fazem sacrifícios para bem dos outros.

São pessoas, com famílias, com necessidades, com desejos, com ambições. São pessoas que se expõem a riscos, que desgastam o corpo e a mente, e que têm nas mãos a vida e saúde de outras pessoas. Esperar que fiquem felizes por fazerem o seu trabalho sem recompensa monetária justa, não é insulto, é desumano. Por trás de um médico, enfermeiro, auxiliar, técnico, bombeiro, está uma pessoa, uma família, que não vivem de palmas, gratidão ou espírito de missão.

Sei que sou uma pessoa rancorosa e com demasiada raiva dentro de mim, mas neste tema sei que a minha revolta é justa. Dizem que já estamos na 3ª crise económica, e eu ainda pensava que estávamos na mesma que começou em 2008.

Mas está tudo bem, lol.

O que importa é a atitude e motivação, lol.

Queres dinheiro emigra, lol.

O trabalho deve ser por gosto, lol.

O dinheiro não traz felicidade, lol.

Contas por pagar, familiares doentes e dependentes, incertezas quanto ao futuro? Não sei o que é isso, mas há de ficar tudo bem se tiveres a atitude certa e se continuares a trabalhar por trocos numa profissão de alta responsabilidade e alto desgaste físico e emocional.

lol

10
Jan21

Hindsight

Kits de reparação de óculos deviam vir com óculos suplentes incluídos. Como é que posso arranjar óculos, com aqueles parafusos minúsculos, se não consigo ver o que estou a fazer?

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