Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

The Limping Mackerel

The Limping Mackerel

28
Mar20

Preocupações

Estou preocupado. É estúpido, porque não há nada que possa fazer para além de estudar e esperar. Não posso impedir os meus pais de irem trabalhar, não posso impedir que eles tenham contacto com pessoas doentes. E irrita, porque eles não têm escolha, é o trabalho deles.

Como é que há bestas que se queixam de ficar em casa como se fosse um sacrifício grande?! Sacrifício é estar quase na idade da reforma, e mesmo assim ter de ir trabalhar com pessoas infectadas! Um dos internados com Covid onde o meu pai trabalha é mais novo que ele, e está em estado grave. Isso sim é sacrifício!

Ficar em casa em isolamento é nada comparado com os caixas de supermercado, que desde que me lembro são desprezados por terem poucas qualificações, mas olhem para eles agora. A trabalhar e a exporem-se para garantir que o resto da população tenha comida para ficar em casa sem fazer nada.

Estou stressado e zangado com as pessoas que insistem em ser egoístas e sair de casa e cagar para as medidas de segurança, mas por outro lado até acho que em Portugal as coisas estão a correr bem, dentro do que é possível durante uma pandemia.

25
Mar20

Diferenças e tecnologias

Hoje, durante uma aula por vídeo conferência, a propósito de gastos e prioridades, o professor (ou será tutor) disse que nós alunos gastamos dinheiro em Ipads e Macs e Iphones, e que há outras coisas nas quais esse dinheiro podia ser melhor investido. No contexto da aula, ele tem razão e foi um comentário pertinente. Mas ri-me (com microfone desligado porque não sou um selvagem).

É verdade que a maior parte dos meus colegas têm Ipads, Macs e Iphones. É verdade que as raparigas seguem a última moda, com acessórios da Bimba e Lola (que aprendi a detestar não só por serem francamente feios como de qualidade rasca, e digo isto após lavar, remendar e passar a roupa dessa marca que a minha irmã adora), malas de Michael Kors (meninas, essas malas passaram de moda há 4 anos, no mínimo), e bijuteria da Tous (novamente, marca de qualidade rasca). É verdade que os rapazes têm perfumes de marca nas mochilas, camisas e pólos e casacos com logótipos reconhecíveis. É verdade que a maioria é vive assim, com luxos materiais. Mas não todos (como eu).

Isto é uma coisa muito patética de se dizer, mas sinto-me deslocado no meio de tantas pessoas para as quais bens materiais relativamente caros são coisas corriqueiras, e não coisas de luxo associadas a enorme culpa porque aquele dinheiro pode ser útil para pagar comida, contas, medicamentos, ou despesas inesperadas. Não me sinto muito há vontade a sair para jantar num restaurante onde vou comer comida francamente medíocre e pagar por um prato o que me daria para 2 semanas no supermercado (1 mês se estivesse em estado limite).

Se por um lado odeio consumismo e adoro minimalismo e frugalidade, por outro lado também quero pertencer, quero ser igual aos outros. Não quero ser o esquisito que ainda usa roupa do liceu e coisas em 2ª mão, não por serem vintage, mas porque estavam abandonadas em casa e suficientemente boas para serem usadas.

Ah, este testamento todo porque o meu portátil de 4 anos bloqueia com facilidade e as aulas de VC perdem a imagem a meio da aula. São pequenos atrasos, pequenos bloqueios, que se vão acumulando e irritam porque tenho os meus apontamentos, livros e slides das aulas todos guardados nesta batata. Tenho dinheiro para gastar num portátil novo, mas este ainda funciona e sinto-me culpado por comprar algo melhor quando tenho algo que ainda funciona.

É como os telemóveis. Comprei um smartphone porque todos os meus colegas tinham Whatsapp e Messenger para comunicarem entre si, e o meu pisa papeis era ainda a preto e branco. Mas esse pisa papeis ainda está em casa, e funciona para bem para o que foi feito. Simplesmente não o consigo deitar fora.

Ah, a rapidez com a tecnologia e a sociedade evoluem deixa para trás muitas ferramentas que funcionam bem, durante longo tempo, mas são simplesmente insuficientes para nos mantermos a par da sociedade. E se eu, nos meus trinta, já sinto isso, bem, nem quero imaginar os mais velhos, ainda mais resistentes à mudança.

Enfim, lavem as mãos, evitem sair da casa, mantenham distância em espaços públicos, não comprem bens de 1ª necessidade em excesso, e se gostam de notícias procurem por coisas não relaccionadas com a pandemia. Há muita coisa interessante a acontecer cá e lá fora que está simplesmente a ser ignorada pelos meios de comunicação.

23
Mar20

Cabeleireiro e barbeiro

Agora que estão a fechar tudo o que não é essencial, como é que as pessoas que precisam de ajuda para se aprumarem vão fazer? Por mim não estou preocupado, que a juba só é aparada uma vez por ano e sob pressão. Mas então e a minha mãe e as pessoas como ela que têm de ir 3 ou 4 vezes por ano? Os homens que vão ao barbeiro fazer aqueles cortes, que embora curtos, têm muita técnica lá metida?

Acho que os penteados à tigela não vão voltar, simplesmente porque no Youtube há imensos tutoriais de como cortar o cabelo ao próprio e aos outros. E se ficar mal após primeira tentativa também não há problema, ninguém vai ver.

22
Mar20

Lockdown

A minha vida não mudou muito nestas últimas semanas. Aliás, tenho saído mais vezes de casa do que faria. Verdade que só vou apanhar ar ao quintal, mas sempre é melhor do que ficar entre o quarto e a sala.

Ah, honestamente, sinto-me um bocado estúpido por não ter levado isto a sério. Nunca me passou pela cabeça que esta pandemia fosse tão mortal na Europa, e apesar de achar que a suspensão do não essencial importante para salvar vidas humanas, é horrível para as pessoas que perderam (e perderão) o seu trabalho. Portugal demorou tanto tempo a recuperar da última crise (chegámos a recuperar totalmente?) e agora volta tudo abaixo. Há aquela máxima de que desde que haja saúde tudo está bem, mas se não há trabalho não há comida, não há habitação, não há segurança, e por último, não há grande saúde.

Só espero é que os sacrifícios que milhões em todo o mundo estão a fazer pelo bem comum valham a pena, e que o espírito de solidariedade e comunidade que se tem manifestado continue e cresça.

15
Mar20

Facetas

Toda a gente tem diferentes atitudes em diferentes situações. A pessoa que conhecemos como amigo é uma pessoa diferente em casa com a família, e é ainda outra pessoa quando está a trabalhar. E é raro experienciar todas essas facetas de uma pessoa (porque não é normal ou saudável estar constantemente emparelhado, óbvio). Por isso adoro, adoro, adoro, ver a minha família a trabalhar. São pessoas que me criaram, com quem vivi a minha vida toda, e sei como se comportam em casa e com amigos. Mas raramente os vejo a ser profissionais. Não posso dizer que sinto orgulho, mas é algo semelhante.

13
Mar20

Fertagus

Agora que tenho o luxo de não precisar de sair de casa para continuar a minha vida, lembrei-me do precioso comboio que costumo apanhar. Para quem não conhece, o Fertagus é o comboio que passa na 25 de Abril e nas horas de ponta (antes e depois da mudança de preço dos passes) vai cheio como uma lata de sardinha. Quando digo cheio, não digo cadeiras todas ocupadas e algumas pessoas em pé. Digo tantas pessoas em pé junto às portas que não conseguimos mexer os braços para ver o telemóvel porque estamos entalados entre outras pessoas. Digo pessoas que ficam de fora do comboio porque não há espaço. Digo que é impossível alguém cair quando se desequilibra porque está suportada por pessoas de todos os lados. Digo, raramente, não conseguir meter os dois pés no chão.

Como estão agora os camaradas que não estão de quarentena e não podem trabalhar remotamente? Ainda há pessoas suficientes para ficarem todos enlatados? Se sim, espero que nenhum deles fique infectado.

11
Mar20

Psicoterapia

Falando em termos muito gerais, quando alguém precisa de psicoterapia vai na crença de que o terapeuta, independentemente da sua formação, vai ouvir, compreender, e muito importante, manter confidencialidade.

Compreender é destes três requisitos o mais difícil, mas pode ser fingindo para obter efeito terapêutico. Francamente falando, as pessoas que tem resiliência e disponibilidade mental para ajudarem os outros muito provavelmente nunca estiveram no fundo do poço. Mas sabem a teoria, têm empatia, e mesmo que nunca compreendam verdadeiramente, acreditam que a pessoa em frente delas sente o que está a dizer. Elas podem não ver os duendes na janela, podem nem sequer saber o que é um duende, pode nem sequer haver uma janela, mas acreditam que para a pessoa em frente há realmente duendes na janela. E isso, para quem precisa de ajuda, é importante. 

Ouvir então, é básico. Fechar a boquinha, prestar atenção, e fazer perguntas em caso de dúvida. Isto é algo que se aprende na escola primária. Isto devia ser básico, nem sequer devia ser mencionado de tão básico, tão essencial que é. Mas na prática nem sempre é. Sabem aquelas pessoas a quem dizem alguma coisa, e elas simplesmente ignoram? Falam por cima? Continuam teimosamente na sua linha de pensamento, sem desvio, sem cedências? Geralmente essas são as pessoas que precisam de terapia, e infelizmente algumas dessas pessoas são o terapeuta. São casos raríssimos, mas deve ser complicado para as pessoas que pela primeira vez procuram ajuda e encontram um destes seres surdos de alma.

Confidencialidade é um bocado mais complicado. Parece fácil, basta não falar do que se passa entre terapeuta e cliente. Mas está na natureza humana partilhar. Um segredo só está bem guardado quando todos que o sabem estão mortos, e quaisquer provas físicas estão destruídas. As redes sociais são o melhor exemplo que as pessoas tendem a partilhar mais do que o que devem. Um terapeuta, além de discutir com colegas (o que é perfeitamente legitimo), pode querer partilhar algo com um amigo ou com um familiar. Não deve ser feito, mas é a realidade. Há situações fora do comum que despertam sentimentos e reacções que queremos partilhar com pessoas com quem temos confiança. Não para expor um terceiro, mas para nos expormos a nós próprios. Nestas situação em que a ânsia de partilhar se sobrepõem a códigos deontológicos, há maneiras de manter a confidencialidade. Não mencionar nome, idade, sexo, profissão, e outros dados específicos; substituir esses dados por outros aleatórios só para manter uma narrativa; ou simplesmente partilhar aquele facto, que ficou entalado na garganta e temos mesmo que partilhar com alguém.

Parece complicado, mas é algo que devia ser elementar para quem, supostamente, foi para além do ensino obrigatório. Se alguém teve capacidades intelectuais, emocionais e sociais para ter educação e formação complementar, é de esperar que tenha o senso comum de pensar um bocadinho antes de abrir a boca para partilhar coisas ditas sob confidencialidade. É como esperar que um triatleta dê uma volta ao bairro. E é triste saber que há (raríssimos) casos em que isso não acontece. São muito, muito raros, mas deve ser muito complicado ir a uma consulta por problemas pessoais, e no final da semana já toda a gente no circulo de trabalho/escola/social saber o que foi dito.

Como é possível voltar a ter confiança quando esta é simplesmente ignorada? Como é possível voltar a ter confiança quando a resposta à indignação é "não devias ter dito isso se não querias que se soubesse", "és idiota se acreditas que eles não contam tudo o que se passa"? Como é possível que situações de falta de profissionalismo grosseiras sejam consideradas normais e irrepreensíveis? Qual é a utilidade de uma carrada de cadeiras, horas e trabalhos de ética e deontologia, quando na prática ninguém quer saber se são aplicadas ou não?

04
Mar20

Quarentena

Agora que o corona vírus chegou a Portugal é que acordei para a crise que o mundo está a passar há, quê, 3 meses? Apesar dos inúmeros avisos pela comunicação social não me preparei para o Apocalipse. A minha comida só dura, meh, 2 semanas na pior das hipóteses. Só tenho 2 máscaras bico de pato, ambas já usadas (sabão azul e branco e ficam como novas!); encontrei um frasco de álcool meio-cheio (que é como devemos encarar a vida), que já deve ter uma boa década de idade.

Sou jovem, aparentemente saudável, e não fumo. Duvido que vá sobreviver. Espero que os cães e gatos que comerão o meu cadáver não fiquem infectados.

01
Mar20

Antecipação

Sofro por antecipação, como é normal na ansiedade. Quero abstrair-me da preocupação e preparar-me para o que tenho de fazer de maneira construtiva. Intelectualmente sei o que tenho de fazer e como o fazer. Mas há um bloqueio, algo que separa a acção da prática.

28
Fev20

Romance

Ter uma relação íntima com alguém é provavelmente um dos momentos altos da experiência humana. Gostar de outro como o outro gosta de nós, ter confiança, cumplicidade, partilhar a vida diária, sentir atração e despertar atração no outro. Assim dito, parece a melhor sensação do mundo.

Queria ter uma relação assim, mas há uma barreira que não consigo ultrapassar. Mesmo encontrando alguém que goste de mim e me aceite com os meus defeitos não consigo sentir. Não consigo confiar, não consigo gostar. Tento e ajo como acho que alguém capaz de sentir agiria. Fake it until you make it. Mas só me sinto um impostor.

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2020
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2019
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2018
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D