Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

The Limping Mackerel

The Limping Mackerel

19
Jun18

...

Sou como uma máquina, preciso de alguém para me comandar. Sem ninguém a ordenar-me desligo.

Não tenho autonomia.

Não tenho vontades.

 

10
Jun18

Ervas

Uma pessoa normal (forte, saudável) continua independentemente das adversidades, sempre em frente. 

Eu (fraco) não. Paro no caminho, faço birra, e só ando para a frente quando o problema está todo completamente resolvido (não vá ele aparecer novamente à frente). Não quero cortar as ervas daninhas para não se verem, quero arrancar tudo, raízes, sementes, e só fico satisfeito, só volto a agir quando não há um traço sequer de erva.

Estúpido, a vida não é um jardim.

07
Jun18

Mortos-vivos

Nasci numa família morta, sem futuro. Não se fala em possibilidades, planos futuros, ou até mesmo prazeres (pequeninos, mínimos) no presente.

Nunca é "para quando um dia tiveres filhos", "se algum dia quiseres fazer algo", ou até mesmo "para irmos a um sítio nas férias". Nunca, nunca, nunca é para algo bonito ou para passar um bom momento.

É sempre "nunca se sabe o dia de amanhã", "depois ficamos doentes e como é que é", "amanhã posso espetar com o carro e depois como é que vocês ficam". 

Amanhã nunca é um bom dia. Amanhã a casa vai arder, ou vai ser roubada. Amanhã alguém vai ter diagnóstico de cancro fulminante (e tem que ser cancro nesta família, não pode ser outra doença igualmente debilitante; nada tanto peso e gravidade como o C) e no caminho de volta vai bater com o carro num poste (e aqui não sei se é morte imediata; a despesa na oficina se calhar chega para desgraça).

Sei que é importante pensar nos problemas do futuro e prevenir e poupar e essa merda toda. Mas é só isso. A minha (maldita, maldita, puta de) vida é sempre estar à espera da desgraça e estar preparado para amparar os outros. E só isso. É essa a minha vida. Tomar conta da minha família, trabalhar para a minha família e esperar, esperar e esperar até à desgraça. Então, e quando passar a desgraça? E se a desgraça nunca chegar? Brincadeira, ela chega sempre.

Só não queria viver sempre nesta angustia, neste medo que me empurraram para cima desde que tenho consciência. Queria viver um pouco, queria acordar um dia e não pensar "mais um dia a preparar, a trabalhar, a poupar para prevenir a desgraça; mais um cabrão de um dia com este fardo sempre, mas sempre em cima de mim". Queria trabalhar e poder pensar "isto é para mim, isto é o meu trabalho", e não "tenho que fazer esta merda porque tenho que fazer isto, porque é isto que querem, é para isto que nasci, porque só nasci para ser de uso a outros".

Sempre, sempre para outros.

06
Jun18

Mestre da culinária

Tenho uma quantidade absurda de morangos no frigorífico, todos para mim. Tenho pena que eles se estraguem e ganhem bolor, por isso a todas as refeições tento inclui-los. Hoje o jantar foi um prato novo, omelete de morangos. E, bem...

Uma omelete de morangos é parecida em textura, sabor e cheiro (foda-se, o cheiro) a vísceras mal cozinhadas. Mesmo depois de feita os morangos ainda tinham imensa água que saiu lentamente e encharcou a omelete enquanto esperava que arrefece-se. Parecia sangue e cheirava a sangue. E a cor da omelete também não ajudava. Um leve castanho aqui, uns fios brancos ali, gordura amarela e claro, vermelho por todo o lado. 

Gostava de dizer que é a coisa mais nojenta que alguma vez comi, mas isso seria mentira.

04
Jun18

Dezasseis

Ouvi a polémica, não liguei porque não me interessa e não vi o anúncio em causa. Ao encher chouriços perguntei a opinião a alguém que gosto de ouvir.

" (...) e também a maneira como o marido a trata não dá, não se trata uma pessoa, ainda por cima doente, assim (...) "

Oi? No meio das notícias que li online nem sequer se mencionava o marido. Horas depois, procurei e não encontrei um anúncio, encontrei uma puta de uma curta-metragem. Dezasseis minutos para transmitir uma mensagem para deixar de fumar? Pedir mais de um minuto de atenção é demasiado. E é isso. A minha crítica a esta campanha é apenas um atentado ao bom gosto. Aquela música lamechas, aquela câmara a tremer, e foda-se, dezasseis minutos para uma campanha de sensibilização. Dezasseis minutos.

Honestamente, a mensagem que o filme passa é bruta, sim, mas se dizer às pessoas para cuidarem de si para passarem o exemplo aos filhos resulta então vamos para à frente. É um golpe baixo, mas poderoso. Pelo menos é assim que interpretei o filme - não tanto como uma mensagem direcionada a mulheres jovens (que eram o público alvo? ah? não sei, mas não faz muito sentido), mas uma mensagem direcionada aos pais, para lhes lembrar que podem passar tanto bons como maus exemplos ao filhos.

E sim, ó paizinho, realmente isso não é maneira de falar com a esposa doente. A tua filha precisa da mãe, verdade, e ela não devia estar a fumar naquele estado, verdade, mas a tua esposa também precisa de ti, seu bruto insensível.

(Além disso, isto pode ser só paranoia minha, mas não é um pouquinho arriscado fumar num quarto fechado enquanto ligado a uma garrafa de oxigénio?)

04
Jun18

...

Não sou uma pessoa.

Não sou uma pessoa.

Não sou uma pessoa.

Não sou uma pessoa. Não sou uma pessoa. Não sou uma pessoa. Não sou uma pessoa.Não sou uma pessoa.Não sou uma pessoanão sou uma pessoanão sou uma pessoa não sou uma pessoa não sou uma pessoa não sou uma pessoa nãosouumapessoanãosouumapessoanãosoupessoanãosoupessoanãosounãosounãosounãosounãosounãosounãosou

02
Jun18

Brincar

Quando era criança nunca brincaram comigo. Ou estavam a trabalhar ou estavam cansados de trabalhar. Essa era a realidade; nem boa, nem má, era.

Agora estou cansado e por vezes tenho de trabalhar (mentira, tecnicamente estou sempre a trabalhar), mas para vocês é como se estivesse ainda a brincar. Não sei o que é trabalhar, não sei o que é estar cansado, não sei o que custa a vida. Tive uma vida que eles queriam para eles, um telhado espesso e paredes secas. Uma cama limpa e seca, sem ratos ou baratas. 

E sou um tremendo ingrato porque trocaria isso pelas memórias que vocês têm da vossa infância, sem hesitação. Ter amigos, ter liberdade, poder sair de casa, poder viver e ser alguém. Porra, sei o que é ter tanto frio que não conseguia dormir, sei o que é ter fome e não ter dinheiro para comer. E acima de tudo sei o que é estar sozinho, sei o que é ser tratado como uma ferramenta, um investimento sem vontade própria, uma máquina criada para trabalhar e cuidar agora de vocês.

Não gosto daquilo que faço, mas quem não tem vocação ou habilidade também não pode escolher. Mas pelo menos queria fazer isto bem feito, o que é muito difícil. E ainda é mais difícil quando tenho que estar sempre disponível para brincar com vocês? Porque não é uma brincadeira o que estamos a fazer? Todas as semanas um problema que já tinha ficado resolvido volta à mesa. Passo uma tarde toda a fazer algo,a arrumar, a limpar, para no dia a seguir ser desmanchado como um Lego.

O que caralhos estou aqui a fazer?

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2021
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2020
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2019
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2018
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D