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The Limping Mackerel

The Limping Mackerel

06
Ago20

Justiça popular

Hoje quero contar uma história antiga que ainda não me esqueci. Foi-me contada por uma pessoa de nome. Uma pessoa de nome é uma pessoa que tem um apelido distinto na terra onde vive, um apelido antigo associado a donos de herdades, engenheiros, advogados, médicos, arquitectos, banqueiros e a dinheiro, muito dinheiro (gostava muito de ter nascido com um nome).

Essa pessoa de nome soube que numa família (sem nome) o pai abusava das filhas. Para por fim aos abusos falou com o pai das ditas raparigas para não o fazer para não arranjar problemas. E parece que o pai acatou. 

Fiquei maravilhado. Um homem que abusava sexualmente das filhas não foi impedido pela consciência, nem pela justiça, mas sim porque alguém mais rico e poderoso lhe disse para não o fazer. Quão célere e discreta é a autoridade! Uns minutos de conversa chegam para alguém parar de cometer atrocidades. Não foi necessário fazer denúncias à polícia e obrigar as raparigas a testemunhar em tribunal. Não foi necessário expor a situação, porque como é sabido, em praça pública elas não são vítimas, são desavergonhadas que expõem e desonram a família, e provavelmente mereceram o que lhes aconteceu.

Ah!

Francamente, esta história deixa-me ambivalente. O meu primeiro instinto é fazer denúncia na polícia e esperar que o sistema judicial proteja as vítimas e as mantenha bem longe e seguras. Por outro lado, entendo porque é que esta pessoa uso o poder (social) que tem para pôr um fim à situação. Vítimas de crimes sexuais são por vezes vistas como piores que os abusadores nos meios onde vivem. Quem expõe os pecados que ocorrem dentro de casa é pior que quem os comete. As raparigas nunca mais de queixaram, mas continuaram a viver com quem lhes faz mal. A ausência de denúncias não significa obrigatoriamente ausência de abusos.

Detesto que um crime contra pessoas, contra crianças, seja escondido não para defender o abusador mas para defender a vítima. Detesto que as vítimas sejam vistas como malucas, indecentes, porcas; detesto que digam que elas se meteram a jeito ou melhor, que seduziram homens com idade para serem pais ou avôs delas (isto nos casos em que não o são de facto, eg professores).

É uma das facetas de viver em sociedade que me faz querer viver no meio do mato com os animais. 

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