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The Limping Mackerel

The Limping Mackerel

28
Out20

Vampiros

Quando era pequeno acreditava em muitas fantasias. Diziam-me que monstros não existiam, mas também me diziam que o Pai Natal era real, por isso como podia confiar no que diziam? Depois cresci e percebi que monstros fantásticos não existem; depois cresci mais um pouco e percebi que eles existem de facto, mas não da forma que acreditava quando era pequeno.

Os vampiros modernos não subsistem de sangue, mas sim de ideias e histórias. Vivem escondidos, isolados, imóveis, intocados pela vida e pela realidade. Não precisam de luz, comida ou companhia, mas sim de ilusões, pelas quais têm uma sede inexequível. 

Como está descrito no folclore, o vampiro não se reproduz, mas transmite o vampirismo. Não o faz com trocas de sangue, mas sim com sons, imagens e palavras, reproduzidas como um vírus. Esta transmissão não é perfeita e um tem que ser muito talentoso ou carismático para infetar outros.

A cura para o vampirismo é bastante simples, mas não é fácil. Primeiro, tem que se ter noção de que se é um vampiro. Depois, tem que se deixar de querer ser um vampiro. Menos fatal que uma estaca no peito, mas com a desvantagem de ser completamente independente de terceiros. Ninguém pode ajudar um vampiro.

25
Out20

Misoginia

Ao escrever uns emails de teor mais formal reparei que penso de maneira diferente em homens e mulheres. Quando penso num homem é mais fácil referir-me a ele pelo apelido, mas referir-me a mulher só com o apelido soa estranho. Considero-me feminista, e então comecei a pensar numa boa razão para tratar homens e mulheres de maneira diferente nos meus pensamentos (noitadas de sábado, quem nunca).

 

Posso tentar justificar esta diferença dizendo que para mim nunca fez sentido (e nunca tive o hábito) de me referir a alguém pelo apelido. Se têm nome próprio é por ele que devem ser nomeados, certo? É esse o objectivo dos nomes. E mesmo sabendo que é mais formal usar o apelido, não vejo como utilizar o nome próprio (com títulos apropriados, obviamente; na 3ª pessoa mas sem utilizar você, menos obviamente) é menos educado. 

(Ah, agora que escrevo isto penso que o nome próprio demonstra mais familiaridade, enquanto o apelido mantêm distância, que é sinal de respeito.)

Pronto, não vejo nomes próprios como inferiores, mas porque motivo me sinto desconfortável a usar o apelido? Ainda pensei que fosse por a maioria dos apelidos soarem masculinos, mas não tenho problemas em utilizar apelidos femininos para me referir a um homem, por isso está descartada a hipótese.

 

Só me resta mesmo a distância: inconscientemente vejo as mulheres como mais acessíveis, e mesmo num contexto formal as trato de maneira mais familiar do que trataria se fossem homens. Mesmo não o fazendo por malícia, é um bocado desrespeitoso. Num contexto formal/profissional uma pessoa é tão acessível quanto o seu cargo, não o seu sexo. 

 

É uma ninharia de etiqueta social, mas já levei tantos raspanetes sobre este tipo de coisas (como mostrar respeito, como cumprimentar, como me referir a alguém) que fiquei um pouco (bastante) paranóico.  
16
Out20

Ignorância

Já não me lembro bem dessa era, mas acho que era mais feliz quando não queria entender os outros e vivia só para mim. É uma coisa absurda de dizer, vindo de um alienado, mas acho que tanto tentei perceber e encaixar-me nas pessoas normais que me abandonei a mim próprio. De centrar a vida em mim, passei a existir em torno dos outros. De achar que a minha maneira era correcta, passei a acreditar que os caminhos dos outros eram sempre melhores do que o meu. Comprei que não sou apenas estranho, sou mau e tudo para o qual me inclino é mau, errado e obsceno. 

O problema, que me demorou anos a aprender, é que o meu caminho não é normal, mas não é obrigatoriamente mau, nem pelos meus valores nem pelos valores da sociedade. É apenas atípico. Não sou um monstro, sou apenas estranho.

Fui de um extremo ao outro, e agora tenho de voltar para trás. É difícil, porque há muitos anos que ando a perseguir a normalidade. Mas estou farto. Não quero a normalidade em si, quero apenas sentir que pertenço e que estou ao mesmo nível que os outros.

Se ser normal me é impossível, e se é apenas um caminho para um destino também ele impossível, porque tento?

14
Out20

Dever cívico

Como sou um bom cidadão, instalei a Stayway Covid. A primeira coisa que reparei é que gasta imensa energia, mas ainda não percebi como funciona. Se estiver em contacto com alguém tenho de fazer teste, mesmo que esteja assintomático? Qual o alcance da aplicação? Detecta pessoas na sala ao lado, ou no outro piso da carruagem?

Estou a fazer perguntas que provavelmente já tem resposta, mas não vou pesquisar porque saber ou não altera nada a minha rotina de casa, com faculdade esporádica.

Ah, queria ter apanhado este vírus no verão, não agora que estou em aulas!

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