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The Limping Mackerel

The Limping Mackerel

27
Nov20

Rastreios de DSTs

No percurso habitual casa-faculdade costumo passar por uma tenda que oferece rastreio a DSTs, assim como preservativos. Como sou um cromo sem comportamentos de risco (suspiro), recusei sempre. Sei que não estou infetado, não vou gastar um teste que não me vai dizer nada. Mas hoje, como voltei particularmente aziado das aulas, caguei na poupança e lá aceitei o convite do senhor para ser rastreado. É só uma vez e aprendia o que é que fazem lá dentro.

Começa com um formulário o mais anónimo possível (iniciais, data de nascimento, naturalidade) acerca de hábitos e antecedentes de risco. No meu caso estes são inexistentes (suspiro), mas pronto, lá me ofereceram rastreio de HIV e sífilis. Eles estão ali para trabalhar, não vão mandar embora pessoas sem picadinha no dedo.

Foi rapidíssimo, acho que menos de 5 minutos entre picar o dedo e os resultados. Após picarem o dedo recolhem o sangue com uma pipeta para colocarem as gotas em 2 pequenas placas, semelhantes aos testes de gravidez. O resultado é mostrado da mesma maneira, no meu caso 1 tracinho em cada placa. Apenas fiquei triste porque não me deixaram ficar com as plaquinhas. Por motivos de confidencialidade não podem sequer ser fotografadas, muito menos levadas.

Acho este tipo de rastreio importante, porque apesar de haver muita informação, há pouca educação (e noção). DSTs não são as sentenças de morte que eram há algumas décadas, mas são doenças sérias. A leviandade com que as pessoas normais encaram a SIDA é algo que me chocou ao início. É um aparte, uma pérola, algo que só se lembram por acaso. Falam das dores de cabeça e de barriga como se tivessem a morrer (não estão), e só insistindo é que se lembram que fazem alguns comprimidos para a SIDA, com o mesmo tom que eu uso para dizer o que comi ao almoço. Por um lado, fantástico que possam fazer uma vida normal com o sistema imunitário enfraquecido. Do ponto vista de saúde mental, para essas pessoas, esta atitude é espetacular. Só não é muito bom para as pessoas que elas podem infetar.

02
Nov20

Terapia e terapeutas

Aviso: este post é um vómito bastante longo, que fermentou durante décadas, e estou mesmo a precisar de meter isto em palavras para arrumar esta caixa, esquecer-me e voltar ao estudo. Até um ermita antissocial como eu fica mal de estar tanto tempo em confinamento; pareço um cão a perseguir a própria cauda. Isto são coisas que não devem ser partilhadas, mas tenho este blog mesmo para transformar em palavras coerentes os nós que tenho na cabeça. É um (bom) exercício.

______________

Como já deu para perceber não sou uma pessoa normal ou equilibrada. Nasci mal e cresci mal, com um feitio de merda (palavras da minha doce mãe). Ainda em adolescente tive problemas, de tal modo que os meus pais, que não acreditam em psicologia ou psiquiatria, me levaram às consultas dos maluquinhos.

Adorei os diagnósticos: um declarou-me uma peste provocadora, outro achou que devia ser internado na hora. Na altura fiquei indignadíssimo por sugerirem que era de tal modo desequilibrado que devia ser internado. Sabendo o que sei hoje, preferia ter ficado internado. No nosso sistema de saúde internar alguém em psiquiatria não é uma decisão de animo leve, e se um psiquiatra, que vê imensas pessoas por dia durante anos, achou que eu não era mais um adolescente rebelde, bem, se calhar ele tinha bons motivos. Mas pronto, eu era estúpido na altura, assinei o termo de responsabilidade e voltei para a rua.

A minha mãe, preocupada, massacrou a psicóloga da escola para me acompanhar. Oh pá, a senhora era simpática, mas nós vivíamos numa aldeia onde tudo (mas tudo) se sabe. Era óbvio que não podia confiar nela, especialmente quando tinha problemas em casa. Já se sabia que era maluco, mas ninguém sabia detalhes sobre a minha loucura, e queria manter isso privado. Alguém me podia perguntar, mas luca, não disseste antes que foste visto por psiquiatras? Sim, mas uma coisa é falar com alguém que vive e trabalha a 300 km e que não me conhece de lado nenhum e nunca mais me ver na vida. Outra coisa é falar com alguém que vive na rua ao lado, numa cidade pequena, onde tudo o que acontece num consultório sai cá para fora. Geralmente numa cafetaria, sobre um queque e um café. Geralmente, com nomes associados.

Só voltei ao fantástico mundo da terapia anos depois, porque estava mal, mas mais importante, porque encontrei alguém de confiança. Alguém discreto, que me perguntava o que podia ou não ser partilhado. Alguém que me ouvia e pelo menos fingia entender (mas não concordar) com o que dizia. Pelo menos fingia entender a minha lógica. Acabei por abandonar, porque, bem, estava a pagar a preço de ouro para ter alguém a ouvir-me. Além disso, eu era (sou) de tal maneira introvertido que a minha evolução era ínfima. Assim que voltava a casa da consulta voltavam as minhas merdas. Era fútil.

Anos depois toca de ir outra vez para terapia. Desta vez, para terapia de grupo. Faz sentido, certo? Em vez de estar a confiar só numa pessoa, podia abrir-me a outras pessoas. Podia relacionar-me com outras pessoas, que tal como eu, têm problemas. Problemas diferentes, vidas diferentes, experiências diferentes, perspetivas diferentes; mas todos a precisar de ajuda. 

Foi horrível, por vários motivos. Eu não queria falar porque não queria tirar tempo aos outros membros do grupo, e só quando me chamavam é que desbloqueava. Porque não é relutância em falar, é bloqueio. Há alturas em que quero falar, tenho que falar, mas não consigo sequer abrir os lábios. Não consigo achar melhor palavra que bloqueio para descrever esta sensação; é quase físico (mas é psicológico, óbvio).

Depois era o entrave habitual de ser demasiado estranho para outros me entenderem. Eu dizia que vejo o céu verde, mesmo sabendo que ele é azul. E o que me era devolvido era: o céu é azul, como é possível estares a verde quando ele é azul, porque é que estás a ver verde, não tens razão para veres verde, olha para o céu e vê que ê azul. É válido, mas quando alguém dizia que as nuvens eram azuis, eu pelo menos aceitava que viam as nuvens azuis, mesmo que para mim fossem amarelas. 

Estou a ser injusto, nem sempre era assim. Houve momentos em que via as coisas da mesma maneira que alguém, e que alguém via as coisas da mesma maneira que eu. Mas as coisas mais importantes (mais graves) para mim, não eram aceites pelos outros. Por cada coisa em que havia ligação haviam 6 que não pegavam. Compatibilidades minor, incompatibilidades major. E o acumular de incompatibilidades levava-me a pensar: não pertenço aqui, não devia estar aqui, estas pessoas são normais com problemas sérios, eu sou apenas um merdas defeituoso, não tenho problemas, como posso dizer que tenho problemas quando os deles são mais sérios e me dizem que os meus problemas não podem existir?

Mas a coisa mais engraçada, que me fazia querer fugir do consultório para fora, era a cara da terapeuta. Ela tentava, tentava a sério, mas sempre que olhava para mim tinha a expressão de alguém que pisou uma bosta (fui eu, sou eu a bosta). Eu via que ela tentava o seu melhor para manter uma expressão neutra e serena, mas ela não conseguia. Até entendo, porque tenho uma cara estranha com tiques estranhos. Sei o que é tentar manter uma atitude profissional e o quão difícil isso pode ser. Mas era todas as consultas, e quase sempre só comigo. Se fosse com todos era uma coisa. Quando é só para alguns, e sempre que fala com esses alguns, bem, é desconfortável. Como é que posso falar livremente se a minha âncora parece querer livrar-se de mim? Senhora, eu sei que sou horrível, mas por favor, esconda o seu nojo! Estou lhe a pagar a preço de ouro para ser ajudado, por favor, nem que seja pelo seu brio profissional, tente ser neutra! Como é que posso falar de coisas pessoais quando alguém me olha como se fosse lixo? Se quero que alguém me trate com asco não tenho de pagar, basta sair à rua.

Não conseguia continuar, era desagradável ir lá. Ficava nauseado de antecipação e saía de lá miserável e estuporado de ansiedade. Simplesmente deixei de ir, e justifiquei com falta de dinheiro, o que é parcialmente verdade. Como é que podia dizer a um psicólogo: as sessões são o pior momento da semana, sinto-me monstruoso por me atrever a entrar naquela sala onde claramente estou a mais, e quanto mais terapia faço mais alienado, mais aberrante me sinto? Algo que era para me mostrar que sou uma pessoa como as outras só reforçou o quanto sou diferente. 

Sei que preciso de terapia, sei que posso melhorar, sei como um facto que terapia funciona, mas até agora nem efeito placebo teve. 

Odeio-me tanto. Não devia ter nascido. Tenho nojo de quem sou.

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