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The Limping Mackerel

The Limping Mackerel

26
Dez20

Não chega

"É por isso que vou votar no Ventura!"

Não devo ser a única pessoa que já ouviu isto, após cometer o erro de falar sobre política ou sociedade. Tal como aconteceu no Brasil e nos EUA, há pessoas revoltadas que veem num candidato o herói que os vai salvar do outro, um outro que é geralmente imigrante, de pele escura, e rouba trabalhos e benefícios sociais.

É incrível, para mim, como é que pessoas que com idade para votar ainda não se aperceberam quem é o verdadeiro outro inimigo, que divide o povo e cria lutas sem sentido para impedir a união. 

Quem é esse outro?

A classe política, é claro. Quem lidera o país? Quem é que desvia dinheiro dos impostos para o bolso? Quem é que decide como o povo vive? Não é o Zé Cigano que precisa das feiras para viver, não é o evacuado dos PALOP, não é a brasileira que vem para Portugal limpar vãos de escada.

André Ventura é apenas mais um de outros, que se está a marimbar para o que motiva os seus apoiantes e dirá tudo o que lhe garante mais votos, por mais absurdo ou macabro que seja. Por um lado é bom, porque ele não é de fato o fascista que projeta ser. Por outro lado é mau, porque mostra que o populismo baseado na xenofobia e divisão ainda funciona. E quer ele seja eleito ou não, os danos causados pela sua propaganda perduram e disseminam-se, prejudicando os mais desfavorecidos pela sociedade.

22
Dez20

Trágico

Sabem o que é que seria muito triste? Se o Estudo de Impacte Ambiental (EIA) para a central fotovoltaica que está programada para ser construida na Quinta da Torre Bela declarasse que esta não devia ser construida. Eles precisam desse estudo para construir a central, certo? Não percebo nada da indústria energética, mas creio que um projeto de tamanha dimensão necessita de autorização governamental. Pois, seria muito triste se o projeto fosse chumbado agora em janeiro, e os donos da herdade tivessem de procurar outras alternativas para esta render. Muito triste.

20
Dez20

Selfie

Não tenho aversão a espelhos, até gosto bastante do que tenho na casa de banho. Ele mostra-me os pontos negros que tenho que tratar, se a barba está bem feita, se tenho de desbastar a monocelha. É útil, e gosto de coisas úteis. 

Mas fotos estão para mim como cruzes para vampiros. Detesto, detesto, detesto. Quando era adolescente com a impulsividade ao rubro, peguei em todas as fotos onde só estava eu e queimei-as. Para mim foi um alivio, para a minha mãe nem por isso. Agora simplesmente viro as molduras para baixo. Arrepia-me profundamente ver aquela cara estranha na periferia.

Escolher fotos para redes sociais então, é outro trabalho. Para documentos oficiais vai a foto passe, em que todos ficam estranhos. Mas não posso meter uma foto passe num perfil, vai contra a etiqueta (e objetivo) das redes sociais. Resta-me usar fotos de grupo, o que é estranho, ou tirar uma selfie. 

Não consigo tirar selfies. Invejo quem consegue. Primeiro, porque é difícil encontrar os ângulos, poses e iluminação adequados. Segundo, porque envolve tentativa e erro, em que cada tentativa implica olhar para uma foto de maneira crítica. Horrível.

Adjacente a isto, sei que é horrível e falta de educação não ligar a câmara em reuniões zoom, mas fico paralisado por ver a minha cara naquele pequeno quadradinho. Tenho capturas de ecrã de aulas que evitei rever porque tinha de me lembrar que mostrei a cara. 

Credo, porque é que tenho tantas paranoias? Só quero ser normal.

18
Dez20

Vida citadina

Coisas boas de viver num prédio

  • A casa retêm mais calor no inverno, pois está rodeada por outras casas com aquecimento ligado.

Coisas más de viver num prédio

  • Ter vizinhos de cima com crianças, que discutem frequentemente, e ouvem música aos berros.

Coisas horríveis de viver num prédio

  • Ter uma vizinha de cima que toma conta dos netos, e há sempre um neto bebé que está sempre a chorar, e há sempre um neto pequeno com um triciclo de brincar, e há sempre um neto em idade escolar a discutir aos gritos com a avó, e há sempre um cabrão de um neto adolescente que insiste em fumar dentro do quarto (mesmo em cima do meu quarto de dormir, argh! como é que a avó não lhe dá com o chinelo? pensava que os fumadores nunca o faziam no quarto onde dormem) e insiste em ouvir e cantar (cantar!) rap ou hip-hop ou o que raio os miúdos ouvem hoje em dia.

Há dias em que vou dormir às 19h para acordar à 1h e poder estudar em silêncio. Credo, sei que são crianças mas pelo som que fazem parece que vivo debaixo de um estábulo. 

16
Dez20

Uniformização

Recentemente sofri um grande desgosto de 1º mundo. Há uma década que uso um programa, Evernote, para me organizar. É um arquivo digital, separado por diferentes cadernos, separadores e páginas, no qual se pode adicionar anexos vários (sons, pequenos vídeos, documentos, imagens, arquivos, etc). É muito simples, fácil de usar, e para quem se baseia só em textos e poucas imagens a versão grátis chega e sobra. A grande vantagem, para mim, é que sincroniza e todos os meus dados ficam guardados nos servidores da empresa. Sei que deixar dados e notas pessoais nas mãos de terceiros é perigoso nos dias que correm, mas acho um preço aceitável para garantir que se os meus discos falharem tenho os meus apontamentos protegidos. Privacidade pura já não existe para quem usa internet, apenas diferentes graus de privacidade. Houve alturas em que procurei outras alternativas, como o OneNote do Windows, que era um bocado fraco (como todos os produtos recentes da Microsoft, isto não é nostalgia a falar, é pura frustração).

Evernote foi um dos pioneiros no seu nicho de mercado, e manteve-se como líder durante muitos anos, apesar de não sofrer grandes alterações. Foram criadas muitas alternativas, mais modernas e sofisticadas, mas nenhuma fazia o que o Evernote fazia de maneira tão simples. Era um produto básico, mas simples e eficaz. Após anos e anos de estagnação, com os consumidores a pedirem correções e novas funcionalidades, Evernote finalmente fez a tão aguardada atualização que traria o programa para 2020. E tal como tudo o que aconteceu em 2020, foi uma desgraça. 

Basicamente, eliminaram tudo o que fazia o Evernote único e que prendia os consumidores, e tornaram-no numa cópia dos programas que foram criados como alternativa ao Evernote. Ah, e cagaram por completo nos consumidores, ignorando por completo os desejos destes e eliminando uma série de funcionalidades únicas do Evernote que eram essenciais para muitos utilizadores. Eu até sou dos sortudos, porque me safo com a versão gratuita, e, apesar de o usar para organizar o meu estudo, não o uso como ferramenta essencial de trabalho. Nem quero imaginar o que sentiram as pessoas que o têm no escritório para projetos e coordenação de equipas e viram uma ferramenta essencial completamente inutilizada (e em alguns casos com notas antigas perdidas, ups, desculpem lá o mau jeito, espero que não precisem do que tinham arquivado no vosso arquivo digital).

Um bocado triste, fiz como muitos e procurei as alternativas disponíveis mais populares, instalei-as e experimentei-as. E cheguei à conclusão que eram todas iguais. São todos muito bonitos, com uma interface muito moderna, muito giro sim senhor, mas em termos de função são pobrezinhos. Têm algumas coisas melhores que o Evernote, e outras que este não tem, mas a nível global ficam aquém das expectativas. É copiar o trabalho do melhor da turma, sem perceber porque é que é o melhor trabalho. É como se tivessem dito aos programadores "faz uma cópia do Evernote, mas mais bonita", quando deviam ter dito "faz um arquivo digital que possa competir com o Evernote, e vê-se metes estas funcionalidades que os utilizadores andam há anos a pedir e que o Evernote ignora". E depois, não só copiam o exemplo, como se copiam uns aos outros, criando vários produtos iguais mas com nomes e preços diferentes. Hm, deve ser assim que funciona em qualquer sector de mercado, desde bolachas a carros.

O que irrita é que em vez de andarem para a frente e melhorarem o seu produto, não. O líder de mercado decidiu copiar as suas alternativas e tornar-se numa delas. Têm fama, têm consumidores fieis, podiam continuar a "arriscar" e continuar a ser o que os fazia únicos. Mas não, como viram que estavam a perder clientes para a concorrência copiaram a concorrência. Em vez de, sei lá, ouvirem os clientes, em vez de os ignorarem como fizeram nos últimos 6 anos.

Como em que num ano marcado por teletrabalho uma ferramenta de teletrabalho perde uma oportunidade de se atualizar e se restabelecer na próxima década como a melhor no mercado.... Se me disserem que o CEO quer destruir a empresa eu acredito. Se me disserem que ele é burro eu acredito. Se me disserem que está rodeado por idiotas eu acredito. Se me disserem que ele tem senso comum e os melhores interesses da companhia em mente, não posso acreditar.

Infelizmente, esta uniformização sem nexo não se limita a este caso, é algo transversal a todas as atividades humanas. Faz sentido copiar algo que é popular porque funciona, mas há coisas que são populares porque sim. Ou seja, não há crítica na escolha das coisas a copiar. Parece que muitas vezes não se pensa no que é que faz algo bom, e faz-se apenas uma pesquisa superficial ao que está na moda e copia-se. Percebo quando se trata do primeiro projeto numa área, especialmente quando há dinheiro e trabalhos à mistura. Um principiante quer jogar pelo seguro, e raramente se pode dar ao luxo de arriscar. Mas alguém que já está estabelecido numa área não tem desculpa: não só pode arriscar em ser diferente, como já devia ter experiência para rever o seu trabalho e estudar a concorrência de maneira crítica.

10
Dez20

Presente de Natal

Já é tarde para mandar cartas ao Pai Natal (será que ele tem e-mail), mas se ainda fosse a tempo já sei o que lhe pedia.

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Credo, mas nem a pandemia que parou todo o mundo durante 1 ano muda esta gente que acha que uma reunião de 15 minutos vale a pena ser feita em pessoa. Nem sequer estou a falar de pessoas de idade, estou a falar de miúdos, com telemóveis e portáteis, por isso também não é falta de acesso a tecnologia. Suspeito que é por serem de letras. Têm a mania que são intelectuais, então têm que fazer tudo à maneira antiga, segundo a tradição. Criatura de Deus, tens em tua mão um iphone caríssimo de ultima geração feito com trabalho escravo infantil. Se vou ter de aturar os teus discursos de esquerda-caviar, a defender as vidas negras americanas ignorando a morte ucraniana em solo português, ao menos faz a merda da reunião pelo Zoom, para eu poder fazer o jantar em vez de fingir que te respeito.

01
Dez20

Hierarquia de Maslow

(Nas últimas semanas tenho andado mesmo revoltado, e qualquer coisa me lança para uma espiral de raiva. Que vergonha. Já estou demasiado velho para ficar indignado com tretas que ouço em conversa de circunstância).

Quando ouço alguém dizer que o dinheiro não traz felicidade, a minha primeira reação é de pegar numa cadeira e espancar esse alguém com a dita. Isto não é um exagero, tenho mesmo impulsos muito violentos, que felizmente sei controlar. A minha segunda reação é tentar mostrar à pessoa o quão profundamente errada está. Como não tenho capacidades sociais, apenas faço figura de palhaço.

Há 2 tipos de pessoas que dizem que o dinheiro não traz felicidade: as completamente destituídas que vivem à margem da sociedade, que conhecem felicidade sem nunca terem tido dinheiro, e aquelas a quem nunca, mas nunca faltou dinheiro. Aliás, às pessoas do 2º grupo nunca faltou dinheiro, e muito provavelmente têm dinheiro que chegue e sobra para uma vida bastante confortável (classe média-alta a alta). Com as primeiras não vou discordar, porque se elas são felizes sem dinheiro, quem sou eu para dizer que não o são? Com o segundo grupo, tenho de discordar, nem que seja no meu blog.

Mas que puta de falta de noção de alguém que nasceu em berço de ouro (puro, não banhado) tem que ter para dizer que dinheiro não traz felicidade. Isto dito por alguém que lida com pessoas sem-abrigo, em contacto direto com as consequências de falta de dinheiro, é simplesmente incongruente. Como é que pode dizer que dinheiro não traz felicidade se todos os dias vê a miséria de quem não o tem? As pessoas são felizes apesar de não terem dinheiro, mas seriam muito mais se o tivessem. 

Neste caso em particular que me deixou incrédulo, usaram o exemplo de alguém que com pouca formação e ordenado mínimo conseguia ser feliz, conseguia fazer a sua vida, e até conseguia meter os filhos na faculdade. É aqui que a barra está, a sério? Uau, conseguiu dar aos filhos a oportunidade de irem para a faculdade, claramente se safa com o seu ordenado miserável. Vamos ignorar os sacrifícios que muito provavelmente fez, os sonhos que abandonou, as coisas que a malta de classe alta toma como garantidas e que são luxos incomportáveis ao português normal.

O dinheiro não traz felicidade, mas traz tudo o que pode fazer uma pessoa feliz. Ter casa própria, ter acesso a bons cuidados de saúde, ter tempo e dinheiro para cozinhar comida saudável, ter roupas de boa qualidade (que cada vez mais me apercebo não serem um luxo, mas uma ferramenta). Acima de tudo, dá paz de espírito. É diferente viver de mês a mês a ter poupanças para a imprevisibilidade. 

É claro que uma pessoa que viveu sempre no pico da pirâmide acredita que o dinheiro não traz felicidade, porque nunca o teve como fator limitador. A partir de um certo limiar o dinheiro não compra mais felicidade (para o próprio, se é que me faço entender). Mas a maioria das pessoas nunca vai chegar, nem em sonhos, a esse limiar. Li outro dia que 20% das pessoas em Portugal vivem no limiar da pobreza; um quinto da população vive com dificuldades marcadas. Um quinto. Até fiquei tonto. Não sei que percentagem da população não vive na pobreza porque se vai desenrascando, mas não acho que seja pequena. Dinheiro dado a essas pessoas traria muita felicidade. Dinheiro investido nos serviços públicos onde essas pessoas vivem traria muita felicidade.

Outra questão adjacente é a educação como elevador social. Esta ideia pode parecer alienígena a muitas pessoas, mas algumas pessoas com poucos meios escolhem as carreiras que lhes garantem dinheiro, em detrimento dos seus gostos pessoais. Pode parecer estranho para muitos dos meus colegas, mas ter comida na mesa (para o próprio e para a família) é para alguns mais importante que seguir sonhos. Há pessoas que fazem imensos sacrifícios para ter uma vida melhor, e que ficam revoltados quando o seu trabalho não é recompensado. E ainda têm de ouvir, de pessoas que têm o luxo de fazer algo porque querem e não porque necessitam, de que deviam estar gratos por poder trabalhar. Que trabalho deve ser por vocação, não por recompensa. Não percebo esta lógica, eles acham que é o sonho de alguém ser caixa de supermercado ou varredor de lixo? São profissões essenciais, como esta pandemia demonstrou, mas duvido que sejam o sonho de muitos. É muito ingénuo pensar que as pessoas seguem os seus interesses (que muitas vezes mudam ao longo da vida) em vez das suas necessidades e habilidades. Especialmente em Portugal.

Não sou exatamente a pessoa mais experiente ou instruída, mas esta é algo que para mim é uma verdade bastante evidente, e choca-me que pessoas que supostamente lidam com miséria não acreditem nela. De onde é que acham que a miséria e seus males proveem?

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