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The Limping Mackerel

The Limping Mackerel

21
Jan21

Bloquear e ignorar

Tenho que me desligar do mundo lá fora.

Tenho de ignorar a pandemia, os mortos, os exaustos e os que estão em risco de ir para a UCI.

Tenho de ignorar as decisões completamente absurdas dos nossos governantes.

Tenho de ignorar as decisões incoerentes de reitores, diretores e professores. 

Não são coisas que possa mudar. Não tenho voz, não faço parte de nenhum partido ou associação estudantil. Não posso ficar frustrado ou revoltado contra a realidade. 

Tenho de aceitar e focar-me apenas em mim, porque eu sou o único fator que posso controlar.

 

Credo, esta pandemia e o circo em volta dela não é um filme de terror, é uma comédia reles sobre a estupidez e incompetência humana. 

10
Jan21

Mais um dia, mais revolta

Detesto pessoas ricas. Detesto a falta de noção com que falam da situação de Portugal. "Querem dinheiro? Emigrem." Pois, receber salário justo e fazer vida no nosso país é pedir demais.

Não minto quando digo isto: a servir cafés e limpar sanitas na Irlanda ganhei mais por mês do que um médico em início de carreira em Portugal (a trabalhar só para o SNS é claro). Mas Luca, a vida na Irlanda é mais cara que em Portugal. Está certo, mas a diferença salarial é muito maior que a diferença entre custo de vida (na minha experiência). Não são países assim tão diferentes; esta é uma diferença que acharia aceitável entre um país africano e um país europeu, não entre duas nações da UE. Revolta-me alguém sem qualquer tipo de formação e com um trabalho pouco importante à sociedade ser mais bem compensado que alguém que trabalhou e sacrificou durante décadas para ter nas mãos a saúde (e vida) de outras pessoas, e cujo o único defeito foi querer ficar no país onde nasceu, com a família e amigos que ama. Ela não se revolta, mas revolto-me eu por ela!

Como é que não posso ficar zangado? Como é que posso conter esta revolta? Como é que posso ficar calado quando alguém nascido em berço de ouro diz que o trabalho deve ser feito por gosto, e que a renumeração é um bónus? Como é que alguém pode dizer isso em plena situação de pandemia, em que os profissionais de saúde se sacrificam por palmas? Profissionais de saúde não são heróis, não são santos que fazem sacrifícios para bem dos outros.

São pessoas, com famílias, com necessidades, com desejos, com ambições. São pessoas que se expõem a riscos, que desgastam o corpo e a mente, e que têm nas mãos a vida e saúde de outras pessoas. Esperar que fiquem felizes por fazerem o seu trabalho sem recompensa monetária justa, não é insulto, é desumano. Por trás de um médico, enfermeiro, auxiliar, técnico, bombeiro, está uma pessoa, uma família, que não vivem de palmas, gratidão ou espírito de missão.

Sei que sou uma pessoa rancorosa e com demasiada raiva dentro de mim, mas neste tema sei que a minha revolta é justa. Dizem que já estamos na 3ª crise económica, e eu ainda pensava que estávamos na mesma que começou em 2008.

Mas está tudo bem, lol.

O que importa é a atitude e motivação, lol.

Queres dinheiro emigra, lol.

O trabalho deve ser por gosto, lol.

O dinheiro não traz felicidade, lol.

Contas por pagar, familiares doentes e dependentes, incertezas quanto ao futuro? Não sei o que é isso, mas há de ficar tudo bem se tiveres a atitude certa e se continuares a trabalhar por trocos numa profissão de alta responsabilidade e alto desgaste físico e emocional.

lol

10
Jan21

Hindsight

Kits de reparação de óculos deviam vir com óculos suplentes incluídos. Como é que posso arranjar óculos, com aqueles parafusos minúsculos, se não consigo ver o que estou a fazer?

07
Jan21

...

Tampões para os ouvidos de esponja, além de serem úteis para quem tem vizinhos barulhentos, são estranhamente confortáveis. Apagam todos os sons exteriores, e a única coisa que existe é a nossa respiração. Devem ser muito úteis para quem tem dificuldades em meditar.

05
Jan21

Intervenção divina

Tenho uma regra: computador para trabalhar e telemóvel para brincar. Geralmente tenho o telemóvel do outro lado da casa, com o som bem alto para telefonemas ou chamadas (não são muitas). 

Agora que começa a época de exames o meu telemóvel faleceu inesperadamente, e o que tenho para emergências é dos antigos, que só dá para telefonemas e mensagens (nem alarmes tem).

Vou interpretar isto como um ato divino, em que alguma autoridade celestial, ao ver-me tão stressado, retirou a única fonte de entretimento que tenho, para me dedicar ao estudo sem ter de resistir à tentação.

Obrigado anjo da guarda, és o maior.

26
Dez20

Não chega

"É por isso que vou votar no Ventura!"

Não devo ser a única pessoa que já ouviu isto, após cometer o erro de falar sobre política ou sociedade. Tal como aconteceu no Brasil e nos EUA, há pessoas revoltadas que veem num candidato o herói que os vai salvar do outro, um outro que é geralmente imigrante, de pele escura, e rouba trabalhos e benefícios sociais.

É incrível, para mim, como é que pessoas que com idade para votar ainda não se aperceberam quem é o verdadeiro outro inimigo, que divide o povo e cria lutas sem sentido para impedir a união. 

Quem é esse outro?

A classe política, é claro. Quem lidera o país? Quem é que desvia dinheiro dos impostos para o bolso? Quem é que decide como o povo vive? Não é o Zé Cigano que precisa das feiras para viver, não é o evacuado dos PALOP, não é a brasileira que vem para Portugal limpar vãos de escada.

André Ventura é apenas mais um de outros, que se está a marimbar para o que motiva os seus apoiantes e dirá tudo o que lhe garante mais votos, por mais absurdo ou macabro que seja. Por um lado é bom, porque ele não é de fato o fascista que projeta ser. Por outro lado é mau, porque mostra que o populismo baseado na xenofobia e divisão ainda funciona. E quer ele seja eleito ou não, os danos causados pela sua propaganda perduram e disseminam-se, prejudicando os mais desfavorecidos pela sociedade.

22
Dez20

Trágico

Sabem o que é que seria muito triste? Se o Estudo de Impacte Ambiental (EIA) para a central fotovoltaica que está programada para ser construida na Quinta da Torre Bela declarasse que esta não devia ser construida. Eles precisam desse estudo para construir a central, certo? Não percebo nada da indústria energética, mas creio que um projeto de tamanha dimensão necessita de autorização governamental. Pois, seria muito triste se o projeto fosse chumbado agora em janeiro, e os donos da herdade tivessem de procurar outras alternativas para esta render. Muito triste.

20
Dez20

Selfie

Não tenho aversão a espelhos, até gosto bastante do que tenho na casa de banho. Ele mostra-me os pontos negros que tenho que tratar, se a barba está bem feita, se tenho de desbastar a monocelha. É útil, e gosto de coisas úteis. 

Mas fotos estão para mim como cruzes para vampiros. Detesto, detesto, detesto. Quando era adolescente com a impulsividade ao rubro, peguei em todas as fotos onde só estava eu e queimei-as. Para mim foi um alivio, para a minha mãe nem por isso. Agora simplesmente viro as molduras para baixo. Arrepia-me profundamente ver aquela cara estranha na periferia.

Escolher fotos para redes sociais então, é outro trabalho. Para documentos oficiais vai a foto passe, em que todos ficam estranhos. Mas não posso meter uma foto passe num perfil, vai contra a etiqueta (e objetivo) das redes sociais. Resta-me usar fotos de grupo, o que é estranho, ou tirar uma selfie. 

Não consigo tirar selfies. Invejo quem consegue. Primeiro, porque é difícil encontrar os ângulos, poses e iluminação adequados. Segundo, porque envolve tentativa e erro, em que cada tentativa implica olhar para uma foto de maneira crítica. Horrível.

Adjacente a isto, sei que é horrível e falta de educação não ligar a câmara em reuniões zoom, mas fico paralisado por ver a minha cara naquele pequeno quadradinho. Tenho capturas de ecrã de aulas que evitei rever porque tinha de me lembrar que mostrei a cara. 

Credo, porque é que tenho tantas paranoias? Só quero ser normal.

18
Dez20

Vida citadina

Coisas boas de viver num prédio

  • A casa retêm mais calor no inverno, pois está rodeada por outras casas com aquecimento ligado.

Coisas más de viver num prédio

  • Ter vizinhos de cima com crianças, que discutem frequentemente, e ouvem música aos berros.

Coisas horríveis de viver num prédio

  • Ter uma vizinha de cima que toma conta dos netos, e há sempre um neto bebé que está sempre a chorar, e há sempre um neto pequeno com um triciclo de brincar, e há sempre um neto em idade escolar a discutir aos gritos com a avó, e há sempre um cabrão de um neto adolescente que insiste em fumar dentro do quarto (mesmo em cima do meu quarto de dormir, argh! como é que a avó não lhe dá com o chinelo? pensava que os fumadores nunca o faziam no quarto onde dormem) e insiste em ouvir e cantar (cantar!) rap ou hip-hop ou o que raio os miúdos ouvem hoje em dia.

Há dias em que vou dormir às 19h para acordar à 1h e poder estudar em silêncio. Credo, sei que são crianças mas pelo som que fazem parece que vivo debaixo de um estábulo. 

16
Dez20

Uniformização

Recentemente sofri um grande desgosto de 1º mundo. Há uma década que uso um programa, Evernote, para me organizar. É um arquivo digital, separado por diferentes cadernos, separadores e páginas, no qual se pode adicionar anexos vários (sons, pequenos vídeos, documentos, imagens, arquivos, etc). É muito simples, fácil de usar, e para quem se baseia só em textos e poucas imagens a versão grátis chega e sobra. A grande vantagem, para mim, é que sincroniza e todos os meus dados ficam guardados nos servidores da empresa. Sei que deixar dados e notas pessoais nas mãos de terceiros é perigoso nos dias que correm, mas acho um preço aceitável para garantir que se os meus discos falharem tenho os meus apontamentos protegidos. Privacidade pura já não existe para quem usa internet, apenas diferentes graus de privacidade. Houve alturas em que procurei outras alternativas, como o OneNote do Windows, que era um bocado fraco (como todos os produtos recentes da Microsoft, isto não é nostalgia a falar, é pura frustração).

Evernote foi um dos pioneiros no seu nicho de mercado, e manteve-se como líder durante muitos anos, apesar de não sofrer grandes alterações. Foram criadas muitas alternativas, mais modernas e sofisticadas, mas nenhuma fazia o que o Evernote fazia de maneira tão simples. Era um produto básico, mas simples e eficaz. Após anos e anos de estagnação, com os consumidores a pedirem correções e novas funcionalidades, Evernote finalmente fez a tão aguardada atualização que traria o programa para 2020. E tal como tudo o que aconteceu em 2020, foi uma desgraça. 

Basicamente, eliminaram tudo o que fazia o Evernote único e que prendia os consumidores, e tornaram-no numa cópia dos programas que foram criados como alternativa ao Evernote. Ah, e cagaram por completo nos consumidores, ignorando por completo os desejos destes e eliminando uma série de funcionalidades únicas do Evernote que eram essenciais para muitos utilizadores. Eu até sou dos sortudos, porque me safo com a versão gratuita, e, apesar de o usar para organizar o meu estudo, não o uso como ferramenta essencial de trabalho. Nem quero imaginar o que sentiram as pessoas que o têm no escritório para projetos e coordenação de equipas e viram uma ferramenta essencial completamente inutilizada (e em alguns casos com notas antigas perdidas, ups, desculpem lá o mau jeito, espero que não precisem do que tinham arquivado no vosso arquivo digital).

Um bocado triste, fiz como muitos e procurei as alternativas disponíveis mais populares, instalei-as e experimentei-as. E cheguei à conclusão que eram todas iguais. São todos muito bonitos, com uma interface muito moderna, muito giro sim senhor, mas em termos de função são pobrezinhos. Têm algumas coisas melhores que o Evernote, e outras que este não tem, mas a nível global ficam aquém das expectativas. É copiar o trabalho do melhor da turma, sem perceber porque é que é o melhor trabalho. É como se tivessem dito aos programadores "faz uma cópia do Evernote, mas mais bonita", quando deviam ter dito "faz um arquivo digital que possa competir com o Evernote, e vê-se metes estas funcionalidades que os utilizadores andam há anos a pedir e que o Evernote ignora". E depois, não só copiam o exemplo, como se copiam uns aos outros, criando vários produtos iguais mas com nomes e preços diferentes. Hm, deve ser assim que funciona em qualquer sector de mercado, desde bolachas a carros.

O que irrita é que em vez de andarem para a frente e melhorarem o seu produto, não. O líder de mercado decidiu copiar as suas alternativas e tornar-se numa delas. Têm fama, têm consumidores fieis, podiam continuar a "arriscar" e continuar a ser o que os fazia únicos. Mas não, como viram que estavam a perder clientes para a concorrência copiaram a concorrência. Em vez de, sei lá, ouvirem os clientes, em vez de os ignorarem como fizeram nos últimos 6 anos.

Como em que num ano marcado por teletrabalho uma ferramenta de teletrabalho perde uma oportunidade de se atualizar e se restabelecer na próxima década como a melhor no mercado.... Se me disserem que o CEO quer destruir a empresa eu acredito. Se me disserem que ele é burro eu acredito. Se me disserem que está rodeado por idiotas eu acredito. Se me disserem que ele tem senso comum e os melhores interesses da companhia em mente, não posso acreditar.

Infelizmente, esta uniformização sem nexo não se limita a este caso, é algo transversal a todas as atividades humanas. Faz sentido copiar algo que é popular porque funciona, mas há coisas que são populares porque sim. Ou seja, não há crítica na escolha das coisas a copiar. Parece que muitas vezes não se pensa no que é que faz algo bom, e faz-se apenas uma pesquisa superficial ao que está na moda e copia-se. Percebo quando se trata do primeiro projeto numa área, especialmente quando há dinheiro e trabalhos à mistura. Um principiante quer jogar pelo seguro, e raramente se pode dar ao luxo de arriscar. Mas alguém que já está estabelecido numa área não tem desculpa: não só pode arriscar em ser diferente, como já devia ter experiência para rever o seu trabalho e estudar a concorrência de maneira crítica.

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