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The Limping Mackerel

The Limping Mackerel

10
Jan21

Mais um dia, mais revolta

Detesto pessoas ricas. Detesto a falta de noção com que falam da situação de Portugal. "Querem dinheiro? Emigrem." Pois, receber salário justo e fazer vida no nosso país é pedir demais.

Não minto quando digo isto: a servir cafés e limpar sanitas na Irlanda ganhei mais por mês do que um médico em início de carreira em Portugal (a trabalhar só para o SNS é claro). Mas Luca, a vida na Irlanda é mais cara que em Portugal. Está certo, mas a diferença salarial é muito maior que a diferença entre custo de vida (na minha experiência). Não são países assim tão diferentes; esta é uma diferença que acharia aceitável entre um país africano e um país europeu, não entre duas nações da UE. Revolta-me alguém sem qualquer tipo de formação e com um trabalho pouco importante à sociedade ser mais bem compensado que alguém que trabalhou e sacrificou durante décadas para ter nas mãos a saúde (e vida) de outras pessoas, e cujo o único defeito foi querer ficar no país onde nasceu, com a família e amigos que ama. Ela não se revolta, mas revolto-me eu por ela!

Como é que não posso ficar zangado? Como é que posso conter esta revolta? Como é que posso ficar calado quando alguém nascido em berço de ouro diz que o trabalho deve ser feito por gosto, e que a renumeração é um bónus? Como é que alguém pode dizer isso em plena situação de pandemia, em que os profissionais de saúde se sacrificam por palmas? Profissionais de saúde não são heróis, não são santos que fazem sacrifícios para bem dos outros.

São pessoas, com famílias, com necessidades, com desejos, com ambições. São pessoas que se expõem a riscos, que desgastam o corpo e a mente, e que têm nas mãos a vida e saúde de outras pessoas. Esperar que fiquem felizes por fazerem o seu trabalho sem recompensa monetária justa, não é insulto, é desumano. Por trás de um médico, enfermeiro, auxiliar, técnico, bombeiro, está uma pessoa, uma família, que não vivem de palmas, gratidão ou espírito de missão.

Sei que sou uma pessoa rancorosa e com demasiada raiva dentro de mim, mas neste tema sei que a minha revolta é justa. Dizem que já estamos na 3ª crise económica, e eu ainda pensava que estávamos na mesma que começou em 2008.

Mas está tudo bem, lol.

O que importa é a atitude e motivação, lol.

Queres dinheiro emigra, lol.

O trabalho deve ser por gosto, lol.

O dinheiro não traz felicidade, lol.

Contas por pagar, familiares doentes e dependentes, incertezas quanto ao futuro? Não sei o que é isso, mas há de ficar tudo bem se tiveres a atitude certa e se continuares a trabalhar por trocos numa profissão de alta responsabilidade e alto desgaste físico e emocional.

lol

26
Dez20

Não chega

"É por isso que vou votar no Ventura!"

Não devo ser a única pessoa que já ouviu isto, após cometer o erro de falar sobre política ou sociedade. Tal como aconteceu no Brasil e nos EUA, há pessoas revoltadas que veem num candidato o herói que os vai salvar do outro, um outro que é geralmente imigrante, de pele escura, e rouba trabalhos e benefícios sociais.

É incrível, para mim, como é que pessoas que com idade para votar ainda não se aperceberam quem é o verdadeiro outro inimigo, que divide o povo e cria lutas sem sentido para impedir a união. 

Quem é esse outro?

A classe política, é claro. Quem lidera o país? Quem é que desvia dinheiro dos impostos para o bolso? Quem é que decide como o povo vive? Não é o Zé Cigano que precisa das feiras para viver, não é o evacuado dos PALOP, não é a brasileira que vem para Portugal limpar vãos de escada.

André Ventura é apenas mais um de outros, que se está a marimbar para o que motiva os seus apoiantes e dirá tudo o que lhe garante mais votos, por mais absurdo ou macabro que seja. Por um lado é bom, porque ele não é de fato o fascista que projeta ser. Por outro lado é mau, porque mostra que o populismo baseado na xenofobia e divisão ainda funciona. E quer ele seja eleito ou não, os danos causados pela sua propaganda perduram e disseminam-se, prejudicando os mais desfavorecidos pela sociedade.

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